Certo dia um viajante que passava em algum canto perdido do mundo escutou uma voz feminina a lhe chamar, a voz dizia:
- Ei, vem cá, ando há muito te observando, ando há muito te espreitando, te esperando e gosto do teu jeito
O viajante lisonjeado disse:
- Que coisa linda de se dizer, e que coisa gostosa de ouvir.
Passaram um tempo se falando e começaram uma amizade. Todos os dias o viajante passava pelo mesmo lugar e conversavam durante horas, este nunca vira seu rosto, apenas escutava os ecos doces daquela menina.
Em pouco tempo um se acostumara ao outro, mesmo sem nunca terem se visto pessoalmente, a razão da amizade ir crescendo talvez se desse por conta da sincronia gostosa que os dois tinham, era como se já se conhecesse faz tempo, vai saber né? Talvez sim, talvez não ou talvez os dois.
O viajante todo dia lhe conta segredos, a menina também partilha os dela, mas parece gostar mais de escutá-lo e rir das histórias engraçadas em que ela se identifica, se projeta e desperta em si mesma uma viajante.
A relação dos dois tem uma porta aberta e sincera, cada um tem um bocadinho do mundo do outro, e os dois se têm, nem se perguntam onde isso vai dar, na realidade já se deu e já se deram. E vão levando o tempo em que estão longe juntos. Não fazem promessas um ao outro, não precisa.
Um dia o viajante teve que viajar e não passou mais pelo mesmo lugar, passaram tempos sem se encontrar, mas não se esqueceram nem um pouco um do outro. O viajante passava por vários lugares parecidos com o que ele escutara a menina na primeira vez, em vão, não escutava mais. E logo agora, que tinha tantas outras histórias, tantas outras agonias, tantos outros segredos, tantos outros desatinos e destinos para partilhar. Mas ele não se importava, sabia que iam se encontrar ainda.
Assim viajou mais ainda e mais, fazendo o que mais gosta: descobrir o mundo e o novo, redescobrir o velho e encontrar outros ecos, sabores, cheiros, cores, desejos e sentimentos guardados em sua essência, despertados em contato com lugares que percorre.
De tanto procurar e não encontrar o viajante um dia guardou um medo em si, foi por pouco tempo talvez um milésimo de segundo, mas sentiu. O medo era de nunca mais encontrar de nunca mais escutá-la, de nunca mais contar seus segredos.
Certo dia ao voltar pra o lugar onde nascera o viajante foi andando em lugares então esquecidos na sua memória, e viu que de longe vinha uma menina, com ar de mulher. Gostou do jeito que ela era sem nem escutá-la e intrigado a perguntou:
- Estou aqui te observando e acho que te conheço, quem é você e de onde vem?
- Sou uma viajante, não venho de lugar nenhum e de todos lugares, venho procurando uma voz que ouvi há algum tempo, mas não escuto mais.
O viajante facilmente reconheceu aquela voz. Assim cada um sorriu para o outro já sabendo do que se tratava. Era a primeira vez que um enxergava os olhos do outro e que um enxergava o sorriso do outro.
Os dois descobriram que amar é libertar e se libertar, que os nexos desconexos da realidade trazem um para perto do outro. Que quanto mais livres mais perto estamos.